Hospedagem em contêiner

19/03/2018 | Fonte: Jornal Brasilturis

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Obra mais rápida e barata, apelo sustentável e experiência inusitada são vantagens oferecidas pelo modelo

Por Larissa Coldibeli

O uso de contêineres na arquitetura não é novidade. Segundo o arquiteto André Luiz Pinto, sócio da POKT Design+Arquitetura, existem registros que datam de 1977, quando houve uma investigação do Exército norte-americano sobre a possibilidade de utilizar contêineres como elemento estrutural de unidades habitacionais temporárias para soldados. No entanto, apenas recentemente essa solução passou a ser adotada em maior escala, principalmente pelo varejo, para lojas, restaurantes e, agora, também pela hotelaria.

No Brasil e no exterior, há vários exemplos de pousadas, hostels e hotéis feitos com contêiner. Em 2008, a rede Travelodge virou notícia por construir o primeiro hotel em contêiner da Europa, em Uxbridge, na grande Londres. Dez anos depois, a rede brasileira Samba Hotéis lança seu projeto de hotéis em contêiner, Samba in the Box para expandir no segmento econômico. A novidade será apresentada a potenciais investidores no Sirha São Paulo, evento para profissionais de hotelaria e food service que acontece entre 14 e 16 de março, no São Paulo Expo (SP).

Fora a Samba in the Box, a rede já opera com mais duas bandeiras: a misdcale Samba e a upscale Bossa Nova. Atualmente são oito hotéis em operação em quatro estados brasileiros: Belo Horizonte, Lagoa Santa, Sacramento e Itabirito (MG), Angra dos Reis e Itaboraí (RJ), Foz do Iguaçu (PR) e Osasco (SP). São aproximadamente 965 unidades habitacionais com previsão de fechar o ano com 1.830. E até o final de 2018 serão 15 hotéis em seis estados, além do de Beirute, no Líbano, que vai inaugurar a internacionalização da rede e a bandeira Bossa Nova.

A estratégia para a marca Samba in the Box é difundir o produto em pelo menos 30 localidades já estudadas e com alto potencial de retorno em até quatro anos, segundo Guilherme Castro, diretor da rede. “Esses pontos estão, principalmente, em locais com maior dificuldade de acesso, mas que são entrepostos comerciais relevantes para a economia do Brasil. Essas localidades vão desde o interior do Mato Grosso à região Norte e desde o Oeste Paulista ao interior do Rio Grande do Sul. Na modalidade Samba in the Box, buscamos fomentar um fundo de investimentos para levar nossa expansão na velocidade que o mercado exige, abrindo conversas com alguns potenciais investidores interessados.”

O executivo diz que, na feira Sirha, a expectativa é fechar ao menos quatro contratos e mais 10 ao longo de 2018. “Dentre os pontos que fazem do Samba in the Box um investimento inovador e interessante podemos citar o custo e tempo de construção. A montagem é feita em tempo recorde: uma unidade com 120 quartos fica pronta em três meses, aproximadamente. E, o mais importante, a flexibilidade de acordo com a resposta do mercado. Em um hotel de alvenaria convencional, depois de construído, o investidor fica ‘preso’ à demanda local. Em um Samba in the Box, é possível alterar a quantidade de quartos e até o local do empreendimento, de acordo com a demanda real aferida pós-construção” , pontuou.

Pioneirismo paranaense

Apesar de o projeto Samba in the Box ser novidade, ele não será a primeira hospedagem em contêiner do Brasil. Um dos pioneiros foi o Tetris Container Hostel, em Foz do Iguaçu (PR), inaugurado em novembro de 2014. “Quando iniciamos nossa obra, existiam pouquíssimas informações e material de pesquisa e poucos exemplo no Brasil. Então, nossa obra foi um canteiro de experimentos, errando e acertando”, disse Karin Nisiide, uma das arquitetas responsáveis pelo projeto e também administradora do hostel.

Segundo ela, na época houve muito preconceito por parte das pessoas. “Achavam que não iria dar certo, mas provamos que dá, sim. Sempre tivemos uma boa aceitação por parte dos hóspedes. Eles ficam maravilhados com a construção, como se pode viver com conforto dentro do contêiner, e como montamos um local com um ambiente agradável, que inspira e convida ao compartilhamento de experiências entre os hóspedes”, afirmou.

O Tetris possui 10 quartos, sendo cinco privativos e cinco coletivos. Outras áreas são recepção, sala de estar, cozinha compartilhada para uso dos hóspedes, varanda, bar, piscina com deque, e área de funcionários e serviço. A estrutura é composta por 15 contêineres. “Não temos nenhuma área em alvenaria, até a piscina foi feita em um contêiner. Apenas a recepção não é, mas foi feita com sobras dos outros contêineres. Para os encaixes, algumas paredes inteiras foram retiradas, então, as reutilizamos na recepção, que tem pé direito duplo, com estrutura metálica”, explicou Karin.

A ideia surgiu com a proposta de ser um hostel sustentável e lúdico, diz ela. “Um contêiner marítimo somente pode ser utilizado para cargas por cerca de 10 anos. Após esse período, ele é inutilizado para essa finalidade. Decidimos reutilizar este material e para dar uma experiência diferente e única para os hóspedes. Quando pensamos em um nome, Tetris era a única palavra que transcrevia o espírito de conexão que queríamos imprimir. Faz alusão aos contêineres, cores, formas que se encaixam e que permitem que novas estruturas sejam formadas. E também a conexão com as pessoas de diferentes cores, idades, nacionalidades que aqui se encontram e formam amizades.”

Sustentabilidade

O apelo sustentável também foi o que motivou a Pousada Container Eco Guarda, na Guarda do Embaú (SC), explica a proprietária Melissa Groehs. “A ideia surgiu por uma questão ecológica, pensávamos em algo que tivesse tudo a ver com o destino que é uma praia que tem como característica a preservação. Depois percebemos que poderíamos fazer algo que instigasse a curiosidade das pessoas de estar dentro de contêineres e viver uma experiência diferente.”

Três contêineres foram transformados em seis suítes, e a pousada foi inaugurada em dezembro de 2015. “São contêineres marítimos que passaram por inspeção, higienização e adaptação com revestimento térmico e acústico. Os cuidados de manutenção são principalmente contra ferrugem, por estarmos na praia. Sempre mantemos a pintura em dia, principalmente de partes não vistas, como o telhado que é o próprio container, já que optamos pela não utilização de telhas.”

Ela diz que a melhor parte é o retorno que tem dos hóspedes. “São muitos elogios, as pessoas se sentem bem, ficam surpresas com o conforto, com o tamanho e também com o fato de não parecer que estão em uma ‘caixa de aço’, como muitos revelam. E outra coisa que ouvimos muito é em relação à temperatura, as pessoas se surpreendem por ser fresco e agradável, pois temos climatização.”

Obra mais rápida

Outra hospedagem nacional desse tipo é o Hostel Container, em Cabo Frio (RJ), inaugurado em dezembro de 2016. São 25 contêineres que deram origem a 35 quartos, entre privativos e coletivos. Há uma casa que já estava no terreno e abriga áreas comuns, como sala de TV e cozinha. Os principais motivos para a escolha da estrutura foram a rapidez da construção e a diversidade de aplicações.

“Começamos a trabalhar com contêineres para fins de armazenamento de material no canteiro de obras. Com o tempo, fomos descobrindo as possibilidades de uso e reuso. Visitamos outros empreendimentos em funcionamento e resolvemos aplicar no nosso empreendimento”, diz o proprietário Bruno Antunes.

Segundo ele, o maior desafio é o isolamento térmico e acústico, que exige adaptações no contêiner marítimo. O arquiteto André Luiz Pinto, sócio da POKT Design+Arquitetura, explica, porém, que já existem contêineres específicos para uso na arquitetura. “O contêiner marítimo transporta todos os tipos de produtos, dentre eles alimentos, baterias e até lixo, itens que podem causar contaminação. O habitacional foi feito especificamente para a permanência de pessoas e contempla itens que favorecem a resolução dessas duas questões. Outra diferença é que o contêiner marítimo é uma unidade em monobloco, enquanto o habitacional é composto de painéis de piso, parede e teto desmontáveis.”

Ele diz que um contêiner marítimo descontaminado custa em torno de R$ 8 mil, enquanto o habitacional pode custar o dobro, mas, como demanda menos adaptações, o valor final da obra fica parecido. “Em comparação com uma obra de alvenaria, o preço da construção com contêiner chega a ser 15% menor, dependendo do acabamento”, explicou.

O maior ganho, no entanto, é no tempo de execução da obra, substancialmente menor. “Um hotel com área semelhante e o mesmo número de andares construído com contêineres fica pronto em 1/3 do tempo necessário para construção de um hotel convencional. Isso permite que o investidor comece a receber hóspedes mais rapidamente, ou seja, o payback é antecipado”, ressaltou.

Outra vantagem, segundo o arquiteto, é a flexibilidade em relação ao número de quartos. Dependendo da demanda, o número de unidades pode ser ampliado ou reduzido rapidamente. O transporte desses módulos para outros hotéis, dependendo da demanda, é muito fácil de realizar. Há ainda a possibilidade de criar hotéis itinerantes em áreas onde não há hospedagem suficiente para atender ao público de grandes eventos, por exemplo.

“Os maiores desafios são na parte de planejamento e seleção de acabamentos que interagem com os elementos construtivos do contêiner. A legislação de algumas cidades também pode ser um entrave na implantação de construções desse tipo. Não vejo a aceitação do público como um desafio. As novas gerações estão mais abertas a construções alternativas e não têm as mesmas barreiras culturais de gerações anteriores”, finalizou o arquiteto.

Serviço:

Samba Hotéis: www.sambahoteis.com

Tetris Container Hostel: http://tetrishostel.com.br

Pousada Container Eco Guarda: www.pousadacontainerecoguarda.com

Hostel Container Cabo Frio: www.hostelcontainer.com

POKT Design+Arquitetura: www.pokt.com.br